31 dezembro, 2009

It's 3 a.m. and the Red Phone Rings


IT’S 3 A.M. AND
THE RED PHONE RINGS
It’s 3 a.m. and the red phone rings foi, porventura, o mais mediático vídeo político das primárias norte-americanas de 2008. Com ele, Hillary Clinton pretendia passar a mensagem de que era importante ter alguém na Casa Branca com experiência, frieza e capacidade de decisão para atender o telefone vermelho em caso de emergência ou crise.

Pois bem, o telefone tocou no final de Agosto sob a forma de um relatório do comandante das forças da NATO e dos EUA no Afeganistão, General Stanley McChrystal, no qual era traçado um quadro negro da situação militar, política, securitária e sócio-económica do Afeganistão e apontava a necessidade imperativa de um surge (aumento significativo de tropas) na ordem dos 44.000 soldados para inverter o curso da guerra.

Na realidade o vídeo tinha razão de ser: o telefone tocou, tocou e tocou e…. nada. Três meses passaram e…zero. Só em Dezembro é que o telefonista de serviço arranjou coragem para atender. Não é fácil de entender. Então esta era a guerra de necessidade (a do Iraque era de escolha, má claro). A guerra boa versus a guerra má. Afinal a nova Administração já tinha feito (e bem) um aprofundado review do conflito em Fevereiro/Março e, presumivelmente, deve ter feito aferições do seu desenvolvimento entretanto.

Na verdade, as questões são diferentes. Em primeiro lugar, os encómios ao conflito no Afeganistão visavam aproveitar politicamente a demonização do conflito do Iraque e atacar George W. Bush primeiro e John McCain depois. Por azar, agora já não há Bush nem McCain e o Iraque está bem melhor do que o Afeganistão (depois de um surge ao qual os Democratas e Obama se opunham).

Em segundo lugar, há os custos políticos de ser Presidente em tempo de guerra: a esquerda do Partido Democrata abomina a guerra; o mainstream democrata é muito céptico e quer uma guerra light versão Vice-Presidente Biden (algumas tropas especiais e uns drones lança-mísseis e os Taliban à solta a tomarem o poder); os Republicanos querem pôr a carne toda no assador; Barack Obama não quer abandonar o conflito cuja importância proclamou mas quer sair do Afeganistão o mais depressa possível, custe o que custar. Converter este cenário complexo numa equação política vitoriosa é um exercício quase impossível.

O resultado foi, como seria de esperar um mix. Positivo, o incremento substancial de tropas americanas (30.000), embora aquém do que terá sido pedido por McChrystal (40.000 a 44.000). A retórica oficial refere um surge de 35.000 homens, contabilizando 5.000 que serão enviados por outros Países da NATO. É óbvio que esses 5.000 não existem, nem existirão. Os aliados europeus, com poucas excepções, são mais ágeis a falar do que a agir, especialmente quando se trata de operações militares em teatro de guerra; como tal, mesmo com artifícios do género “o batalhão X que devia regressar em Janeiro vai permanecer no Afeganistão mais 3 meses”, se conseguirá atingir esse número o que é, aliás, lamentável.

Na realidade, só um significativo aumento do poderio militar dos EUA/NATO no Afeganistão, permitirá levar a cabo a estratégia de counter-insurgency, a única proposta que permite acalentar esperanças fundadas de um êxito, mesmo que relativo, da missão de estabilizar o país e erradicar os seus elementos ou grupos mais radicais e perigosos. Tal passa por centrar o esforço de guerra na protecção da população e dos centros populacionais mais significativos, procurando garantir a segurança dos Afegãos e a estabilidade social. Só assim haverá as condições básicas para promover o desenvolvimento económico e infra-estrutural e convencer os Afegãos cépticos ou indecisos de que o futuro será melhor com o actual governo e de que é seguro apostar no sucesso da NATO e na derrota dos Taliban.

Francamente negativo foi o anúncio de um deadline de 18 meses para iniciar a retirada. Supostamente, para pressionar o governo afegão a arrepiar caminho e para dar tempo ao novel exército afegão para assumir o grosso da luta contra os Taliban. Na realidade, o factor principal foi a vontade que Obama tem de fugir a sete pés do Afeganistão e a necessidade de dar um rebuçado à ala pacifista maioritária no Partido Democrata, à qual pertence. Falta a Obama o fighting spirit e a consciência geopolítica de que o poder e a disponibilidade para o usar ainda são factores incontornáveis nas Relações Internacionais.

Dentro de 18 meses, o exército afegão ainda não terá a dimensão e a capacidade para arcar autonomamente com o esforço de guerra. Pior do que isso, é que os Taliban e a Al-Qaeda também vêem e lêem as notícias e sabem que lhes basta resistir durante 18 meses e esperar que o inimigo comece a fazer as malas. Então sim, o espírito de Saigão poderá voltar para assombrar a Casa Branca, poderá não haver margem para gastar mais uns meses a deliberar e a escolha poderá ser apenas entre a derrota total e o reforço maciço de tropas. Por outras palavras, um beco sem saída. É evidente que os 18 meses não são inocentes: para além de placar o Partido Democrata, em Julho de 2011 estar-se-á a 16 meses das eleições presidenciais norte-americanas e Obama quer retirar as tropas do Afeganistão a tempo de o Afeganistão sair da mente e da memória do eleitorado, ou seja, a prioridade é vencer em 2012; a guerra está em segundo plano.

Resta ter fé que a estratégia do General McChrystal dê frutos até ao Verão de 2011, para o bem de todos nós e não apenas para o de Barack Obama e do Partido
Democrata.

02 outubro, 2009

"Será que as Pessoas Gostam de Sofrer?"

“SERÁ QUE AS PESSOAS GOSTAM DE SOFRER?”

“Será que as pessoas gostam de sofrer?” Este foi o desabafo espontâneo do meu filho Afonso Duarte (10 anos), ao ver as projecções eleitorais na noite de Domingo. De forma simplista e reflectindo a sua percepção daquilo que o rodeia, não deixa de ser uma compreensível manifestação de estupefacção.

Afinal, sofremos com subidas de impostos, com despesas públicas em projectos faraónicos, com uma crise económica que parece crónica e que é anterior à crise financeira mundial, com o desemprego crescente, com o estado omnipresente, com a educação maltratada, com o espezinhamento dos professores, com a proibição de reprovações, com o aumento do crime e da insegurança, com o bloqueio da justiça, com o controlo da comunicação e a represália contra a crítica. Não obstante, no final pouco importam as motivações dos eleitores: construtiva, de protesto, destrutiva, ou masoquista, são os resultados que relevam.

Valha a verdade que a vitória do PS de Sócrates foi muito pálida comparada com a de 2005: o PS perdeu meio milhão de votos, o seu registo baixou 9% e o grupo parlamentar terá menos 25 deputados. Muito longe, portanto, da “vitória extraordinária” proclamada pelo respectivo Secretário-Geral na noite eleitoral. Ironicamente, o partido vencedor perdeu votos, percentagem e deputados para TODOS os outros 4 partidos!

A segunda ironia das eleições residiu no score eleitoral do PSD, que foi praticamente igual à derrota supostamente catastrófica do PSD de Pedro Santana Lopes em 2005. O PSD cresceu menos de meio por cento, uns residuais 0.4%, que lhe valeram mais 3 deputados, fruto da queda eleitoral do PS! Apesar de estar melhor do que há um ano atrás, o PSD de Manuela Ferreira leite não teve imaginação, nem chama e poucas ideias, embora tivesse razão em várias matérias económicas e sociais. Infelizmente, sucedeu ao PSD o que eu previa por altura das eleições internas e que reafirmei neste blog no início de 2009.

Para quem é de direita, restou a satisfação de ver a (essa sim) extraordinária performance eleitoral do CDS. Paulo Portas seleccionou um conjunto de temas a que o centro-direita é sensível e tocou preocupações com as quais muitos cidadãos empatizam, nas áreas da segurança, segurança social, economia, agricultura e fiscalidade e manteve-se afastado dos fait-divers. Foi a única voz credível do arco democrático fora do centrão. Quem queria uma alternativa não-totalitária ao “bloco central”, sí tinha o CDS. O resultado foi o melhor em 26 anos e o CDS tornou-se no fiel da balança no Parlamento. Bless or curse, adiante se verá.


O tonitruante BE teve uma noite eleitoral agridoce. Doce, a duplicação do número de deputados, a ultrapassagem ao PCP e o final da maioria absoluta socialista. Amarga, a fuga do CDS (+5 deputados) e a impossibilidade de fazer maioria com o PS, o que lhe reduz o poder e a influência.

Finalmente, o PCP. Sobe e desce. Sobe ligeiramente o número de votos e ganha um mandato na AR. Desce no ranking de 3º para 5º e desce no amor-próprio. Mas resiste e aumenta o número de deputados pela terceira eleição consecutiva.

A abstenção subiu para perto dos 40%, mostrando que ao entusiasmo eleitoral dos media não corresponde necessariamente o dos eleitores. Penso que corremos o risco de caminharmos para uma situação em que o período eleitoral se torne num conjunto de rituais que envolvem e excitam a classe política e jornalística e dos quais a população se afasta e desinteressa.

Aproximam-se tempos interessantes, o que, como se sabe, não é necessariamente bom.

O Parlamento vai recuperar parte da influência e prestígio perdidos o que é bom porque é (devia ser) o cerne do sistema democrático.

A estabilidade política vai estar omnipresente no discurso, sendo que o politicamente correcto e o interesseiro a sobre-valorizam, confundindo-a por vezes com paz poder ou com a calma do pântano (this rings a bell…).

A bipolaridade do sistema político-partidário português foi enviada para a surtigas, numa eleição em que os partidos médios saíram globalmente triunfantes. Também isso terá sido bom para um sistema demasiado viciado.

Ah! As Legislativas e as Autárquicas vão ficar separadas outra vez: estas serão em 2013 e aquelas terão lugar em 2011. Até lá!

NOTA: Os resultados e mandatos referidos no post excluem, como é óbvio, os 4 deputados a eleger pelos círculos da emigração.

P.S. Este post foi escrito há dois dias, mas não consegui colocá-lo no Blog. Também aqui alguém terá tentado calar uma voz incómoda!!! loool

26 junho, 2009

Ilusões Persas



ILUSÕES PERSAS


Nas eleições presidenciais iranianas, o Presidente cessante, Mahmoud Ahmadinejad, conseguiu uma expressiva vitória com 63% dos votos, esmagando a concorrência, deixando o segundo posicionado, Mir Hossein Moussavi com 32% e os dois restantes com votações abaixo dos 2%.

Este resultado provocou surpresa e consternação no Ocidente, esperançado que estava que um candidato dito reformador removesse do poder um Presidente radical, beligerante, desbocado e perigoso.

A surpresa, a desilusão e as reacções, derivam de um conjunto de ilusões fundadas mais em esperança e desejo do que em hard facts.


AS ILUSÕES PERSAS DO OCIDENTE

1- Os Iranianos estão fartos de Ahmadinejad e dos Ayatollahs radicais que os governam e, perante uma alternativa reformadora credível abraçá-la-ão entusiasmados. Na verdade, muitos Iranianos de classe média urbana estarão saturados do Presidente do Irão e das suas políticas externa (agressiva), económica (ruinosa) e social (castradora), mas o populismo de Ahmadinejad, os generosos subsídios e outras prebendas distribuídas pelo Presidente durante o boom petrolífero garantiram-lhe vasto apoio nas camadas populares (maioritárias) e nas províncias.

2- O Irão está longe de ser uma democracia, apesar das eleições. A existência de um Líder Supremo não eleito com reais e supremos poderes, o carácter teocrático do regime e as múltiplas interferências dos ayatollahs, nomeadamente na triagem dos candidatos presidenciais, as limitações às liberdades de expressão e de imprensa, são demonstrativos do cariz não-democrático da dita república islâmica. Esperar que os detentores das alavancas do poder abram mão dele de forma suave e conformada, é outra ilusão.

3- Mir Hossein Moussavi é um liberal, moderado e reformador? Só com boa vontade se poderia chegar a essa conclusão. Poder-se-á dizer que, comparado com Ahmadinejad, qualquer um faz boa figura, mas Moussavi é, há 30 anos, parte do establishment iraniano: protagonista do encerramento das universidades iranianas e de purgas de professores na época da Revolução, Ministro dos Negócios Estrangeiros que defendeu a internacionalização da revolução islâmica e Primeiro-Ministro na altura do lançamento do programa nuclear do Irão. Ou seja, tal como com Khatami, Presidente de 1997 a 2005, o mais que se poderia legitimamente esperar seria um abrandamento dos aspectos mais agressivos e radicais da postura interna e externa do regime, mas sempre dentro das estritas balizas estabelecidas pelo Ayatollah Ali Khamenei e pelo Conselho dos Guardiões.

4- Teerão reflecte o pulsar político do Irão. Não é assim e os resultados eleitorais comprovam-no, mas é a realidade que os correspondentes ocidentais conhecem e extrapolam-na para o país inteiro, o     que cria outra ilusão.

5- As eleições foram uma completa fraude. Francamente, não acredito. Aponta-se como um indício de fraude o facto do Ministério do Interior ter proclamado Ahmadinejad vencedor no dia seguinte às eleições, o que até não é surpreendente se a margem de votos para Moussavi tiver sido tão grande, mas ninguém questiona como Moussavi pôde reclamar vitória no próprio dia das eleições. Além do mais, falsificar uma vitória por 13 milhões de votos, seria uma fraude de dimensões épicas e, portanto, pouco provável.

Daqui não se pode deduzir alguma simpatia pelo regime de Qom, perdão de Teerão, que é opressor do seu povo, retrógrado, belicoso e perigoso para a estabilidade do Médio Oriente e para a segurança do mundo através do seu programa nuclear. Ora, isto não é, bem pelo contrário, um país e uma situação acerca dos quais se possa ter quaisquer ilusões, sob pena de se sofrer forte desapontamento.

14 junho, 2009

Direita Volver

DIREITA VOLVER


in "The Economist", 11 June  2009

 
Os partidos de direita e centro-direita venceram as Eleições Europeias em 20 dos 27 Estados-Membros da União Europeia, incluindo a Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Polónia e Holanda, ou seja, os 7 maiores países. Os partidos socialistas/trabalhistas perderam em toda a linha, sendo nalguns casos esmagados (Alemanha, Reino Unido, Hungria e até em Portugal).

Os partidos radicais (de direita e esquerda) registam ganhos significativos em vários países, como o Reino Unido, Holanda, Portugal, Itália, Hungria, Dinamarca, Finlândia, Áustria e Eslováquia.

A abstenção nestas eleições foi de 57%, batendo novo record de afastamento das urnas na Histórias de 30 anos de eleições directas para o Parlamento Europeu.


VITÓRIA DA DIREITA
Estes resultados contrastam de forma impressionante com os gritos de alarme e de triunfalismo que se ouviram da esquerda quando rebentou a crise financeira no ano passado. Alarme perante os excessos do capitalismo selvagem, a ganância dos investidores e a própria existência de mercado e de iniciativa e criatividade privada que fugisse ao estrito controle do Estado (que é intrinsecamente sábio e bom como se sabe). Triunfalismo porque, como disse José Sócrates, o liberalismo abriu falência e o socialismo estatizante está de volta e em força.

Pelos vistos, a maioria dos cidadãos na maioria dos países europeus não pensa exactamente assim. Eu sei que a direita europeia não é um paradigma de liberalismo económico, mas é o mais próximo que se pode encontrar no Velho Continente. E os resultados foram tão homogéneos e até avassaladores de Londres a Roma, de Lisboa a Varsóvia, que se pode considerar que os valores mais liberais para a economia e mais conservadores na segurança e na sociedade triunfaram em toda a linha. O que é manifestamente bom.

ASCENSÃO DOS RADICAIS
Os diversos radicalismos que pululam pela Europa fora, tiveram umas boas eleições. Fascistas, Comunistas, racistas, eco-radicais, piratas todos registaram sucessos, ora subindo votações e elegendo mais representantes, ora conseguindo eleger deputados pela primeira vez. O cenário é clássico: recessão e crise económica, desemprego ascendente e rendimentos decrescentes, grandes comunidades imigrantes pouco integradas e receitas idênticas e sem grande esperança dos partidos do mainstream. Resultado: procura de alternativas onde elas existem, cada vez mais longe do centro.

NÃO VOTAMOS
A cada eleição directa para o Parlamento Europeu, a abstenção sobe, atingindo nalguns países valores estratosféricos: Eslováquia – 81%; Lituânia – 79%; Rep. Checa – 72%. 57% dos Europeus não se deu ao trabalho de votar e em cerca de 20 países a abstenção superou os 50%. Se dúvidas houvessem, os eleitorados tornaram a demonstrar o seu empenho no processo de construção e integração europeia e no reforço dos poderes do PE. Só não vê quem não quer. E quem não quer ver, recusa-se a tirar as ilações devidas perante estes números…

10 junho, 2009

Cartão Laranja

CARTÃO LARANJA

As Eleições Europeias em Portugal tiveram resultados surpreendentes, pelo menos tendo como referência as cada vez mais duvidosas sondagens que vão sendo publicadas. A primeira nota vai para o galopante desinteresse que o eleitorado revela por estas eleições, nas quais 63% dos Portugueses se abstiveram de votar. Curiosamente, se às eleições se aplicasse o requisito de afluência que, injustificadamente se impõe aos referendos, não teríamos deputados eleitos para o Parlamento Europeu. Nem Portugal, nem 18 outros países da UE. Para cúmulo, dos que votaram, 6% votou branco ou nulo, o que configura um voto de protesto em relação às propostas apresentadas. No final, a vitória do PSD representa um cartão laranja ao Governo do PS. A ver vamos se a cor do cartão passa a amarelo ou a vermelho nas Legislativas de Outubro.

Uma breve análise de umas eleições em que houve 4 vencedores e um derrotado.

PSD: O PSD é o grande vencedor das eleições obtendo sozinho a mesma votação que teve em 2004 em coligação com o CDS. Esta vitória é concludente e pertence, fundamentalmente a Manuela Ferreira Leite e a Paulo Rangel. Ambos conseguiram manter uma linha de rumo que passou por fazer uma campanha de clara denúncia das deficiências da governação socialista, de aproveitamento da falta de jeito do cabeça de lista do PS e de evitar entrar no jogo sujo que o PS tentou introduzir na campanha.

Os resultados catapultam o PSD e a sua líder para um Verão mais tranquilo de preparação para os embates de Outono, retiram-lhe pressão e colocam-na no adversário. Convém, contudo, temperar o entusiasmo. O PSD subiu 3% relativamente às Legislativas de 2005 e ainda está aquém do patamar normalmente atingido pelo partido vencedor em Portugal (acima dos 35%). A grande diferença está no trambolhão monumental do PS. Manter a pressão e encontrar nova solução ganhadora em Outubro é o grande desafio que Manuela Ferreira leite tem pela frente.

PS: O PS registou uma queda eleitoral colossal, cerca de 18%, quer a referência seja a das Europeias de 2004, ou as legislativas de 2005. Esta votação é uma penalização dura e merecida por uma governação crescentemente arrogante, desfasada das aspirações dos Portugueses e escudada na maioria absoluta e em sondagens simpáticas mas falíveis. Para completar a receita do desastre, a catastrófica escolha de Vital Moreira para cabeça de lista, o candidato mais desajeitado e inepto e incompetente de que há memória recente. No entanto, Vital não saiu numa rifa azarada, foi escolhido pelo Secretário-Geral do PS, José Sócrates, que assim sai duplamente chamuscado destas eleições.

Obviamente, o PS está longe de estar eliminado das eleições de Outubro. A questão é saber se terá percebido que o afrontamento gratuito de classes profissionais como os professores, funcionários públicos, enfermeiros, ou polícias, espremer a classe média e esbanjar dinheiros públicos em projectos faraónicos, desagrada às pessoas e tem custos eleitorais. Não acredito que o PS mantenha o rumo daqui para afrente como os seus dirigentes anunciaram no spin pós-eleitoral. Há demasiado em jogo em Outubro para o comboio rosa continuar a acelerar rumo ao abismo. Contudo, a renovação da maioria absoluta é cada vez mais uma miragem e não estou a ver Sócrates dependente de Louça, Jerónimo, ou Portas para aprovar orçamentos e legislação fundamental na próxima legislatura. Assim, ainda mais do que o PS, Sócrates sai machucado destas eleições.

BE: Aumentar de 1 para 3 deputados de 4% para 11% e ultrapassar PCP e CDS, configura um estrondoso sucesso eleitoral e faz crescer as expectativas para as legislativas. Este é o 1º problema: é mais fácil para um partido de protesto ter um bom registo em eleições secundárias como as europeias do que nas eleições mais importantes que são as legislativas. O 2º prende-se com a utilização a dar a um eventual grande resultado no Outono: faz coligação com um PS eventual vencedor minoritário? Ou continua a fazer oposição? Penso que irá pela 2º via, mas para quem é eterna oposição há limites naturais de crescimento que remetem para o 3º, 4º ou 5º lugar.

PCP: Melhor resultado dos últimos 15 anos num caso notável e único na Europa Ocidental de resistência de um partido comunista ortodoxo. Muito mérito na liderança da contestação social, sindical e de rua, para compensar menor brilho mediático e parlamentar relativamente ao Bloco. O azar do PC foi ter tido apenas menos 2000 votos do que o BE que lhe tiraram o 3º lugar (simbólico) e o 3º deputado (real). Tendo ganho mais distritos do que o próprio PS (3 contra 2), o PCP tem condições para recuperar o 3º posto em Outubro, mas a simpatia popular de Jerónimo de Sousa começa a ser curta para as exigências eleitorais dos comunistas.

CDS: Desceu para 5º partido pela primeira vez desde 1985, mas sai vencedor por dois motivos: ganhou outra vez 2 deputados, mas desta vez num universo de 22 em vez dos 24 de 2004; e teve 8%, mais do dobro do que as sondagens lhe conferiam e que configuravam um resultado terminal para o CDS de 2 a 3%. O facto de no debate pós-eleitoral se ter recuperado o cenário AD e enterrado o famigerado fantasma do bloco central, é, em si mesmo, confirmação de que o resultado de Portas e Nuno Melo conjugado com o do PSD recuperou alguma importância daqueles no panorama político-partidário português.

Sondagens: Uma miséria. Semanas a fio a proclamarem a vitória folgada do PS: erro miserável. Semanas a fio a proclamarem a extinção do CDS: tão fora da realidade que parece má fé. Por uma questão de transparência e credibilidade, deveria ser obrigatório a publicação e publicitação de quadros comparativos das diversas sondagens com os resultados eleitorais, para as pessoas poderem separar o (pouco) trigo do (muito) joio. Já não bastava os árbitros a condicionar resultados!

Extrema Esquerda: A esquerda geneticamente totalitária teve 21% dos votos! É notável. Mais uma área em que nos destacamos na Europa, onde não há nenhuma situação remotamente comparável Ah! Há pouco tempo atrás, na Áustria os partidos totalitários tiveram 30%, mas esses são dos totalitários maus, são da extrema direita. Para já, o nosso voto de protesto fica-se pelos totalitários bons, os da extrema esquerda.

04 junho, 2009

Tiananmen

TIANANMEN - 20 ANOS

A extraordinária coragem do estudante chinês a enfrentar uma coluna de carros de combate do Exército Chinês.
in “Frankfurter Allgemeine Zeitung” -
http://www.faz.net/

Há 20 anos, a 4 de Junho de 1989, na Praça de Tiananmen, em Pequim, o Exército Popular de Libertação carregou sobre milhares de manifestantes pró-democracia, na sua maioria estudantes universitários. Largas centenas, provavelmente milhares, de pessoas foram mortas. Milhares desapareceram, foram presas ou silenciadas. Com elas morreu também o sonho de um degelo chinês à la Gorbachev.

Cinco meses mais tarde, na Alemanha, o Muro de Berlim desmoronou-se. Na China, a Muralha abanou mas não caiu.

Em 2009, a luta pela democracia e pela liberdade está largamente esquecida. O mundo está fascinado com a ascensão económica da China e reconhece-lhe, por antecipação, o estatuto de potência política mundial. A admiração com o sucesso económico e a ganância por um quinhão do mega-mercado de 1.3 biliões de consumidores obnubila o pensamento e a falta de clarividência leva à convicção de que a República Popular da China é uma potência benfazeja.

A opressão interna, o monopólio do poder político pelo Partido Comunista, a inexistência de direitos políticos e individuais, a agressividade de certas vertentes das políticas externa e militar da China, o crescimento imparável do seu potencial bélico desfazem essa convicção.

A memória obliterada de Tiananmen deveria eliminar quaisquer dúvidas. O poder comunista de Pequim é totalitário e potencialmente perigoso. O timing da queda da máscara será o do interesse nacional e estratégico da China e pode demorar muito tempo. Afinal, o tempo tem um significado diferente no Ocidente e no Oriente.
Frente a frente, a Estátua da Liberdade de Pequim e Mao Tsé Tung. in “Frankfurter Allgemeine Zeitung” - http://www.faz.net/

P.S. Agradeço à Cláudia o envio do link donde retirei estas fotos. Facilitou-me o trabalho.

01 junho, 2009

Carrossel Nuclear

CARROSSEL NUCLEAR
Kim Jong Il lançando mísseis.
in “The Economist”, 30 May 2009

 
Depois de ter realizado o seu primeiro teste de uma arma nuclear em Outubro de 2006, a Coreia do Norte fez o segundo esta semana. Uma explosão um pouco mais potente que a anterior, indiciando um lento progresso no know-how norte-coreano no caminho para produzir um engenho com uma potência próxima da máxima. Estima-se que a actual tenha sido de 20 a 30 kilotoneladas, estimativa da Rússia.

Antes do teste, em Abril, a Coreia do Norte havia lançado um míssil Taepodong que sobrevoou o Japão e caiu no Pacífico depois de 1300km de voo. Depois do teste, já lançou 5 mísseis de curto alcance da costa nordeste do país. Esta sequência mostra uma tendência de escalada de uma postura agressiva.

Após anos de negociações no âmbito do grupo dos 6 (Coreia do Norte, Coreia do Sul, EUA, Japão, China e Rússia), de múltiplas concessões oferecidas a Pyongyang e de contumácia dos Norte-Coreanos no desrespeito dos acordos, o que fazer?

Há 3 hipóteses:

1- CARROSSEL INTERMINÁVEL - Continuar a fazer o jogo de Kim Jong Il, ou seja, faz-se um acordo, como consequência a Coreia do Norte recebe um conjunto de ajudas (energética, financeira) dos parceiros, especialmente dos EUA e Coreia do Sul e passado algum tempo renega o acordo sob qualquer pretexto e desmultiplica-se em ameaças, concretizadas ou não. Para placar Kim Jong Il, fazem-se novas negociações, novo acordo, novos apoios e passado algum tempo recomeça tudo de novo.


2- INDIFERENÇA E ISOLAMENTO - Realiza-se um acordo, a Coreia do Norte não cumpre, acaba-se o acordo, as negociações e as ajudas. Isola-se e contém-se o vírus da melhor forma possível.

3- RAIDS AÉREOS - Coreia do Norte mantém a sua postura agressiva, continua a desrespeitar as Resoluções do Conselho de Segurança da ONU, testa armas nucleares, lança mísseis e ameaça a vizinhança: então corta-se o mal pela raiz, bombardeia-se as instalações norte-coreanas ligadas à proliferação de WMD e à produção e lançamento de mísseis e resolve-se (este) problema definitivamente.

A primeira eterniza a situação e o regime comunista em Pyongyang. Pior, mantém e com o tempo reforça o seu arsenal nuclear e, com isso, os riscos de proliferação nuclear e de know-how balístico. Além do mais, é uma possibilidade repetidamente tentada e sempre falhada. Excluída.

A segunda é a melhor alternativa. Rompe com o ciclo vicioso actual, sem correr os riscos inerentes à opção bélica. Na prática, colocaria Kim entre o cumprimento e o isolamento que, a ser executado, acabaria por asfixiar o regime. Se a Coreia do Norte reagisse a esta política com a guerra, aí teria de se passar à última opção.

A terceira hipótese é de muito complicada aplicação, numa zona onde confluem interesses e coexistem fisicamente (territorialmente) várias das principais potências mundiais (EUA, Rússia, China e Japão), as sensibilidades são muito grandes e os riscos de escalada são alguns. Não é de excluir, mas deveria ser o último recurso.

É para mim evidente que vamos continuar a girar neste carrossel nuclear. Os esforços diplomáticos têm uma inércia própria das burocracias e tendem a eternizar-se, mesmo sem perspectivas de resultados, como se fossem fins em si próprios. Para dar um processo destes por terminado, é preciso coragem e firmeza e admitir que é uma perda de tempo e, neste caso, funciona como um benefício ao infractor. Mais a mais, com um novo Presidente dos EUA que prometeu falar sobre tudo com todos, não é de crer que rompa com o ciclo vicioso. Quando as coisas correram pior, como de costume culpará as administrações anteriores.

Como o Japão não tem força para fazer mover o comboio e a China e a Rússia estão bem com o statu quo no Nordeste da Ásia, tudo indica que tudo ficará como dantes, com o explosivo Kim Jong Il a fazer impunemente as suas diatribes, até ao dia em vá longe de mais.

03 fevereiro, 2009

O Estado do PS

ESTADO DO PS
 

 
A situação do PS é francamente melhor do que a do PSD, mas não suficientemente boa para ter um 2009 tranquilo.

PRÓS:

1- As sondagens, que lhe dão resultados abaixo da maioria absoluta, mas suficientemente perto para acalentar esperanças de lá chegar dentro de 9 meses.
2- A ineficácia e descrédito da oposição, especialmente a que está à direita, que tem permitido ao PS ocupar grande parte do centro do espectro político.
3- A crise internacional, que permite ao Governo exportar as causas dos problemas e importar as soluções que lhe são mais convenientes em ano eleitoral.
4- A reacção do eleitorado à performance de José Sócrates, que tem balançado entre a aceitação e a apatia.
5- O feeling generalizado de que o PS já ganhou.

CONTRAS:

1- Os focos de resistência ao Governo, protagonizado por grupos sócio-profissionais, maxime, os professores.
2- O acolhimento que o PCP e o BE têm tido em tempo de crise e que as sondagens têm confirmado. Pode estar aqui a chave de um eventual falhanço eleitoral do PS.
3- A crise, se adquirir os contornos mais negros que se receia, pode torpedear a credibilidade do Primeiro-Ministro, do Governo e do PS.
4- O Caso Freeport.
5- A agitação/rebelião da ala esquerda alegrista.
6- A teimosia de uns (Lurdes Rodrigues) e o caceteirismo troglodita de outros (Santos Silva) membros do Governo

O PS ocupa claramente a pole position na corrida eleitoral de 2009 e é o partido do Governo, o que significa que muito do que serão as eleições depende do que (não) fizer. Detém grande controlo sobre a agenda política, pode tomar as medidas que entender nos seus timings e, é claro, é vulnerável aos humores da economia.

Curiosamente, até ver, a crise é a grande aliada do PS para 2009. Por um lado, permitiu a José Sócrates deflectir o ónus pelas dificuldades económicas para a crise internacional, branqueando as dificuldades endógenas. Por outro lado, permite ao Governo inundar o país com investimentos e apoios potencialmente geradores de retorno eleitoral, o que não seria possível num cenário económico mais tranquilo. A dura realidade que este autêntico fartar vilanagem vai ser feito atirando às urtigas o esforço que os Portugueses tiveram de fazer durante 3 anos para reduzir o deficit só será consciencializado e sentido depois das eleições.

O Caso Freeport é uma sombra na caminhada vitoriosa de José Sócrates, com um impacto que é prematuro avaliar. No entanto, tendo em conta o cinismo prevalecente na relação dos Portugueses coma política e os políticos, creio que os efeitos que vier a ter serão pouco significativos, a não ser que sejam produzidas revelações devastadoras e sustentadas.

Pior para o PS é o dinamismo eleitoral que a extrema-esquerda parece demonstrar e que pode ser potenciado pela previsibilidade da vitória socialista, que poderá levar eleitores de esquerda a sentirem-se mais confortáveis em castigar o Governo sem correr o risco de contribuir indirectamente para um triunfo do PSD. Igualmente mau será uma eventual tradução eleitoral da revolta dos professores com a política educativa (?) do PS; é apenas uma hipótese, porém suficiente para hipotecar a maioria absoluta, ou mesmo a vitória.

Muito do resultado do PS dependerá, por um lado, da evolução da crise e da percepção que dela tiverem os eleitores ao longo da Primavera e Verão e, por outro, do desempenho de José Sócrates: se os Portugueses o vêem como solução ou factor da crise, como impoluto ou corrupto, como firme defensor do interesse público ou teimoso e arrogante na persecução da sua agenda política, enfim, mais do que os outros partidos, o PS estará dependente da (im)popularidade do seu líder à entrada do ciclo eleitoral.

27 janeiro, 2009

O Estado do PSD

O ESTADO DO PSD



Na entrada do ano de (quase) todas as eleições, importa discorrer um pouco sobre o estado e as perspectivas dos principais partidos portugueses.

O diagnóstico laranja é, como direi....penoso. O PSD corre sem rumo nem estratégia, aparentemente com a mesma clarividência de um homem vendado em direcção a um muro. A continuar assim, arrisca-se a que o resultado seja o mesmo.

Durante muito tempo, faltava a Manuela Ferreira Leite convicção e determinação; parecia estar a fazer um frete, que gostaria de estar noutro lugar que não na São Caetano. Nem me refiro ao silêncio de Verão que é sobrevalorizado por uma imprensa que não tolera que não lhe falem quando quer, mas à falta de disponibilidade para estar com os dirigentes e militantes do partido. Essa fase foi ultrapassada, mas permanecem problemas fundamentais:

1- Uma ideia para Portugal, um objectivo mobilizador e uma estratégia para lá chegar.
2- Uma oposição acutilante e permanente ao Governo que o atinja nos seus múltiplos pontos fracos. Não resulta fazer um ataque forte pontual e depois passar semanas como se nada se passasse. Entretanto o PS vai veiculando a sua mensagem.
3- O PSD demonstra a capacidade mobilizadora e entusiasmante de um filme de Manuel de Oliveira e a sua Presidente não tem o carisma e o entusiasmo necessários para galvanizar as bases do Partido, para já não falar da população em geral.
4- O PSD tem menos estabilidade que o Benfica no tempo de João Vale e Azevedo.

Os dois primeiros pontos são ultrapassáveis, os dois últimos muito dificilmente o serão. Deste caldo, resulta uma descrença generalizada que é meio caminho para uma derrota em Outubro.

Neste ambiente, mesmo as iniciativas positivas que a Direcção tome são acolhidas com cepticismo, ou pior, com indiferença e entramos num círculo vicioso em que o fracasso e a ineficácia se auto-alimentam. A isto acresce que no inner-circle da Presidente parece prevalecer o mesmo sentimento a julgar pelas ausências, pela falta de garra, pela inexistência aparente de quem procure corrigir o rumo e a estratégia, pelas faltas de comparência quando é preciso defender Manuela Ferreira Leite de ataques de figuras de segunda linha do Governo.

Quo vadis PSD?

Penso que o PSD se vai arrastar sem ânimo até às eleições, sem alterações de política e de protagonistas. Manuela Ferreira Leite tem qualidades, mas a capacidade de ter um golpe de asa que mude o seu (e o nosso destino) não está entre elas. Os membros supostamente mais importantes da sua entourage, ou não são relevantes, ou já são proto-candidatos para o pós-2009. Pedro Santana Lopes está ocupado com Lisboa e deixou de ser uma alternativa à liderança, pelo menos para já. Pedro Passos Coelho está em campanha há 10 meses, numas primárias solitárias e a primeira coisa que quer é estar nas listas de deputados em 2009 e a última coisa que quer é que haja eleições internas antes de 2010. Luís Filipe Menezes já assumiu que não é candidato e incorre no erro do exagero no ataque à liderança, sem esquecer que é graças à sua saída de cena que Ferreira Leite lá se encontra. Alberto João Jardim corre por fora e só teria possibilidades num cenário de implosão eleitoral do Partido, o que não é provável, nem impossível.

Então resta esperar pelo embate contra o muro? O futuro afigura-se muito cinzento, mas há sempre (?) algum foco de esperança a que nos podemos agarrar: um voto de protesto nas eleições europeias que permita um bom resultado ao PSD e o recuperar de ânimo para as eleições do Outono; que a saturação com a crise e com o governo da crise, perdão, do PS, supere a descrença na oposição; que o PCP e o BE sangrem o PS pela esquerda encurtando as distâncias entre o PSD e o PS e retirando a maioria absoluta a este; um fenómeno de fénix do PSD que o leve a mobilizar os Portugueses.

Trata-se, contudo, de pouco, quando estamos a falar da única alternativa de governo em Portugal. No fundo, o que mais falta ao PSD, é apresentar uma verdadeira alternativa de governo (de projecto) para Portugal. Até lá, vamos (des)esperando.